segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Ser José não é para qualquer mané

Depois de um período de ausência, onde fazia a trilha inca para chegar a Machu Picchu (qualquer dia, escrevo um post sobre isso), cá estou... E divido com vocês, o conto mais recente, homenageando os Josés do Brasil, de São José dos Campos, Pinhais, Rio Pardo, Rio Preto, San Jose (da Costa Rica, California).


SER JOSÉ NÃO É PARA QUALQUER MANÉ

São José dos Campos, sábado, bar do Zé:

 

-        Zezinho, traz mais uma gelada e aipim, disse José Ricardo, o anfitrião!

-        Pra mim, a picanha mal passada e uma caipirinha de frutas vermelhas, rebateu Mazé, de São José do Rio Pardo

-        Mais algum pedido, perguntou Zezinho, sempre cordial.

-        Uma cachaça de Minas, emendou Zé Maria, vindo de São José de Rio Preto

-        Traz duas pra mim, disse a saudosista Josefa, de San Jose, Califórnia

 

Sem nenhum constrangimento José, de São José dos Pinhais, tomava seu rabo de galo. Mais uma vez, estava reunida a confraria do Josés.

 

O papo rolava solto, havia seis meses que não se viam.. E mais uma vez, enalteciam, ostentavam o nome dado pelos pais. A confraria tinha até brasão, um jota dourado acompanhado por um esse vermelho. Em letra maiúscula, fonte desenvolvida exclusivamente para o grupo.

 A pauta do encontro era organizar um evento para prestar homenagem ao nome... afinal, ser José não é para qualquer mané. Depois de muita briga, os homens venceram e decidiu-se organizar a primeira Copa José Youssef Yosef Joseph de Futebol!

 Mas a discussão não parou por aí... todos queriam sediar o campeonato. Ofereceram mundos e fundos para receber as partidas. Era porco no rolete, festas de abertura, coquetel de encerramento, desfile em carro de bombeiro, foto na primeira página do jornal da cidade, jóias, viagens, dinheiro....

 Como bons botequeiros, tentaram palitinho, dois ou um, par ou ímpar, porrinha, moeda. A solução foi dada pela Joseana, mulher do Zezinho. Em voz alta, gritou lá da cozinha, enquanto fritava mais coxinhas:

-        Chega de confusão no meu bar... Esse ano, o jogo será aqui mesmo, em São José dos Campos! E teremos o time dos políticos contra o combinado gringos e artistas. 

O silêncio durou pouco e todos animados partiram para organizar o campeonato.  Conseguiram o primeiro patrocinador: Jose Cuervo, bebida oficial da competição.

 E chegou o grande dia. São José dos Campos em polvorosa, recebendo o primeiro jogo. Estádio lotado, o circo armado, fogos de artifício, personalidades, prefeito, marias chuteiras, marias gasolinas, marias josés na arquibancada buscando o seu zé.

 A confraria obviamente envaidecida com o sucesso do evento. José Ricardo, como membro anfitrião, toma o microfone e faz um longo discurso, explicando a origem do nome José:

-        Em hebraico, vem do nome Yoseph, aquele que acrescenta, que sofre com os problemas alheios. E conserva o autocontrole mesmo nas piores situações.

Zé Carioca, o mascote da competição, incomodado com os gritos da torcida, chamando-o de Loiro José. Porteiro Zé, o outro mascote, visivelmente embriagado tropeçava na linha lateral e despencava no gramado. A torcida delirava.

 

José Luis Datena, mestre de cerimônias, anuncia:

 

-        E o time dos políticos vem no três cinco dois, com o vice-presidente José Alencar no gol. A defesa, formada por Trípoli, Serra e Aníbal.

-        No meio, os petistas Cardozo, Dirceu, Genoino, Mentor e Cirilo. E formando o ataque, uma dupla de peso: Fogaça e Sarney, capitão, técnico, psicólogo, fisiologista e  presidente da equipe.

Mas na prática, o esquema não funcionava... Ninguém entendia como jogavam. Sempre pelo meio ou direita...

-        Não é possível, até os canhotos jogam pelo meio, dizia José Trajano, o comentarista que cobria a partida.

-        Pois é, vejo um clarão no lado esquerdo, uma verdadeira avenida, complementou Datena, agora narrador.

 

E não parava por aí.. era uma confusão. Tudo era discutido, negociado, barganhado.

-        Serra, passa a bola pra mim! Estou livre, dizia o impaciente José Dirceu, sozinho no meio da área

-        Se você passar pro Dirceu, no próximo pênalti quem bate é você, gritou Genoíno

-        E se não tiver pênalti no jogo?, perguntou o sempre nervoso Serra ainda com a bola nos pés

-        Ah, a gente compra um. O juiz está no esquema, responderam em coro vários jogadores

 

Josefa, aproveitando seu livre trânsito no mundo das celebridades fez um grande trabalho e montou uma verdadeira constelação.

Trouxe um combinado de gringos e escritores para participar do torneio. Percebia-se que eram diferentes, começando pelo esquema.  Um ousado três quatro três!!!

Na defesa, os três tenores, ou melhor, os zagueiros: Carreras, Cocker e Satriani. Dava gosto de ver... afinadíssimos, sincronizados, não saíam do tom. Perfeitos!!

No meio, quanta classe. José de Alencar, José Miguel Wisnik, José Lins do Rego e José Roberto Torero. Alternavam passes longos, tabelas curtas, inversões de jogo. Não faziam falta. E não perdiam a chance de usar a caneta, ou melhor, meter a bola embaixo das canetas. No ataque, os brilhantes, temperamentais e letais Stalin, José Mourinho e José Saramago.

E tudo corria bem, o time jogava bonito, encantava, parecia a seleção de oitenta e dois. Mas em um lance isolado, tudo mudou. Cocker tinha a bola nos pés, nenhum adversário para ameaçá-lo.

-        Toca pro José, gritou uma morena alta, ao lado do alambrado

-        Mas para qual deles?, retrucou Cocker, com sua voz inconfundível

-        Ah, qualquer um, solta a bola!

E assim fez Cocker, recuando a bola para Jose Maria Aznar, o goleiro. O jogo estava tão fácil para os gringos que Aznar, encostado na trave, lia tranquilamente os Lusíadas. Assustado com o recuo, não pegou a bola com os pés e sim camões, ou melhor, com as mãos. Falta em dois lances! Quase tomaram o gol.

Mas era o prenúncio que algo errado iria acontecer. E não deu outra. José de Alencar fez um lançamento de cinquenta metros para Stalin, que avançou pela esquerda, como um raio. E sem perder tempo, cruzou, buscando Saramago.

-        Rá rá, rá, impedido, apontou o juiz José Simão, soprando seu apito dourado.

-        Ei juiz, tá ficando cego?, berrou Saramago, já na marca do pênalti.

Pânico no estádio.... o juiz tá ficando cego. Foram todos embora. Os gringos voltaram a seus países. Os políticos, mandaram buscar seus jatos. Medo que fosse uma epidemia.

Fim de jogo!

 

Um comentário:

  1. Que maravilha!!!! Adorei a hora em que ficou um "clarão" na esquerda... hahahahah! Aqui no Rio Grande do Sul tem "São José dos Ausentes". Acho que foi o pessoal que não pode comparecer ao jogo!

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