Domingão, friozinho chato lá fora e enquanto espero a tradicional pizza de mussarela da Padaria Real (ao lado da MTV), aproveito para postar um dos contos que mais gostei de escrever...
Foi um dos primeiros, escrito quando morava no Rio. Despertei no meio da madrugada e rascunhei as primeiras idéias, terminadas no computador do escritório, na hora do almoço. Com vocês, o lamento da letra H, ou o conto das letrinhas.
O LAMENTO DA LETRA H
Tarde ensolarada no Rio de Janeiro, mais uma reunião na Academia Brasileira de Letras.
O dono do alfabeto vestido impecavelmente, gel nos cabelos, óculos redondos, ao melhor estilo Olavo Bilac, toma o microfone:
- Senhores e senhoras, tomem seus lugares. Está aberta a sessão!!!
Lá estão todas as letras, as vogais sentadas juntas, entrosadíssimas, após a conquista do campeonato de futebol de salão do alfabeto. As consoantes, presença maciça e esmagadora na reunião, confiantes da aprovação de mais emendas e propostas. E os dígrafos então, apaixonadíssimos, sempre juntos... “SS”, “RR”
Ah! E a letra “CÊ”!!! Quanta alegria com sua prole, o “C Cedilha”. Realmente, a presença de uma criança transforma a casa.
À primeira vista, parece que a felicidade reina na academia. Só um membro continua cabisbaixo, triste, taciturno. E pede a palavra:
- Ilustríssimo criador e mantenedor desta nobre casa, pela ordem!
- Palavra cedida, letra “AGÁ”. Por que essa fisionomia tão abatida?
- A vida não tem sido boa para mim! Todos na academia estão felizes, cada um a sua maneira. Veja a letra “XIS”!!!
O criador logo interrompe:
- Ah! Não me fale dela! Com o surgimento das urnas eletrônicas, ninguém faz mais X nas eleições!!!
Argumento logo retrucado pela triste letra “AGÁ”:
- Nada disso! Além de toda a sonoridade, até virou nome de cantor!!! E participou da Casa dos Artistas!!!
- Sejamos justos, letra “AGÁ”, intervém o dono do alfabeto.
- Não aceito comparações entre os colegas. Procurei dar destaque a todos vocês. Só aceito reclamações e requisições com argumentos coerentes e bem defendidos!
A letra “AGÁ”, suando as bicas, refeita do susto e da bronca, toma ar e dá início ao seu discurso:
- Não estou contente com a minha função no alfabeto. Não sou percebido em lugar nenhum; no início das palavras ninguém repara que eu existo. Nem entre as crianças (e outros mais velhos também) sou popular. Quantas vezes já vi escreverem “orrível ou oje”!!!
E continuou com suas lamentações:
- Eu só sirvo mesmo para acompanhar os outros colegas. Quero carreira solo, luzes, holofotes, glamour!!!
No plenário, são ouvidos murmúrios, risos, comentários. Até que se levanta a letra “ÉLE” e aos berros, brada:
- Não dê ouvidos a essa infiel. Sai com todo mundo... Aqui mesmo tem mais 2 colegas que andam sassaricando com ela. E aponta as letras “ENE” e “CÊ”, que prontamente tapa os ouvidos do seu filho “Cedilha” para que não ouça tais impropérios.
O criador interrompe a sessão por instantes para que a exaltada letra “ÉLE” recobre a consciência e tome um pouco da água. E toma o microfone novamente:
- Letra “AGÁ”, não seja melodramática!! Veja só essa onda de numerologia. Quantas mulheres já a incluíram em seus nomes. É um tal de DeboraH pra cá, SaraH pra lá!!!
Por instantes, o plenário acreditou que o assunto estava resolvido, mas houve ainda um último desejo:
- Meu criador,considere o pedido dessa pobre criatura. Faça uma revisão nesse alfabeto. Delegue-me outras funções, me dê som!!! Veja meus parentes estrangeiros como são valorizados, som forte, gutural!!
- Está bem, está bem!! Vou considerar seu apelo, mas não vai me falhar na hora H!!!