Tarde ensolarada no Rio de Janeiro, mais uma reunião na Academia Brasileira de Letras.
O dono do alfabeto vestido impecavelmente, gel nos cabelos, óculos redondos, ao melhor estilo Olavo Bilac, toma o microfone:
- Senhores e senhoras, tomem seus lugares. Está aberta a sessão!!!
Lá estão todas as letras, as vogais sentadas juntas, entrosadíssimas, após a conquista do campeonato de futebol de salão do alfabeto. As consoantes, presença maciça e esmagadora na reunião, confiantes da aprovação de mais emendas e propostas. E os dígrafos então, apaixonadíssimos, sempre juntos... “SS”, “RR”
Ah! E a letra “CÊ”!!! Quanta alegria com sua prole, o “C Cedilha”. Realmente, a presença de uma criança transforma a casa.
À primeira vista, parece que a felicidade reina na academia. Só um membro continua cabisbaixo, triste, taciturno. E pede a palavra:
- Ilustríssimo criador e mantenedor desta nobre casa, pela ordem!
- Palavra cedida, letra “AGÁ”. Por que essa fisionomia tão abatida?
- A vida não tem sido boa para mim! Todos na academia estão felizes, cada um a sua maneira. Veja a letra “XIS”!!!
O criador logo interrompe:
- Ah! Não me fale dela! Com o surgimento das urnas eletrônicas, ninguém faz mais X nas eleições!!!
Argumento logo retrucado pela triste letra “AGÁ”:
- Nada disso! Além de toda a sonoridade, até virou nome de cantor!!! E participou da Casa dos Artistas!!!
- Sejamos justos, letra “AGÁ”, intervém o dono do alfabeto.
- Não aceito comparações entre os colegas. Procurei dar destaque a todos vocês. Só aceito reclamações e requisições com argumentos coerentes e bem defendidos!
A letra “AGÁ”, suando as bicas, refeita do susto e da bronca, toma ar e dá início ao seu discurso:
- Não estou contente com a minha função no alfabeto. Não sou percebido em lugar nenhum; no início das palavras ninguém repara que eu existo. Nem entre as crianças (e outros mais velhos também) sou popular. Quantas vezes já vi escreverem “orrível ou oje”!!!
E continuou com suas lamentações:
- Eu só sirvo mesmo para acompanhar os outros colegas. Quero carreira solo, luzes, holofotes, glamour!!!
No plenário, são ouvidos murmúrios, risos, comentários. Até que se levanta a letra “ÉLE” e aos berros, brada:
- Não dê ouvidos a essa infiel. Sai com todo mundo... Aqui mesmo tem mais 2 colegas que andam sassaricando com ela. E aponta as letras “ENE” e “CÊ”, que prontamente tapa os ouvidos do seu filho “Cedilha” para que não ouça tais impropérios.
O criador interrompe a sessão por instantes para que a exaltada letra “ÉLE” recobre a consciência e tome um pouco da água. E toma o microfone novamente:
- Letra “AGÁ”, não seja melodramática!! Veja só essa onda de numerologia. Quantas mulheres já a incluíram em seus nomes. É um tal de DeboraH pra cá, SaraH pra lá!!!
Por instantes, o plenário acreditou que o assunto estava resolvido, mas houve ainda um último desejo:
- Meu criador,considere o pedido dessa pobre criatura. Faça uma revisão nesse alfabeto. Delegue-me outras funções, me dê som!!! Veja meus parentes estrangeiros como são valorizados, som forte, gutural!!
- Está bem, está bem!! Vou considerar seu apelo, mas não vai me falhar na hora H!!!

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